sábado, 13 de setembro de 2014

Apenas pensando no que fazer e etc

Ela olhou pra mim como quem prevê futuros demais. Mexeu levemente os lábios como quem completaria tediosa e previsivelmente tudo que eu diria e fechou sua expressão, embasbacada com o que veio depois.
- E se você não estiver certa?
- O quê? - retrucou ela, em tom de confusão.
- E se você não estiver certa sobre absolutamente tudo que gira ao seu redor? E se o mundo for mais do que apenas desistir, dormir e acordar? Creio que jamais te ocorreu que seja perfeitamente possível que você esteja redondamente enganada e ninguém jamais foi capaz de apontar isso.
- Eu não erro. - seca, ríspida, dona da verdade. Nada que eu já não conhecesse.
- Acabou de errar, aliás. - retruquei, sarcástico.
Ela silenciou e enrubesceu. Jamais fui capaz de decifrar uma ruga de preocupação que fosse no rosto dela, tão pouco consigo desvendar qualquer pensamento confuso e devastador que possa a ocorrer.
- Tô apaixonado por você, porra! E isso não é errado.
- Errado é você passar por isso e se machucar...
- Já reparou que quem tem mesmo medo da dor é você? A grande verdade é que eu cago e ando pro que venha a me arder. Se eu quisesse me isentar disso, viveria numa bolha. Você é medrosa.
- Não tenho medo de nada. - mentiu ela.
Mentiu sim. Essa era uma mentira das boas - ou das ruins - que ela sempre contava.
- Eu não tenho medo de nada. Não me importo com o que possa doer, com o que possa marcar ou com o que possa ser esquecido. Só consigo pensar que você não vai me afastar porque eu não vou embora e nem vou deixar que você se vá.
Fez-se silêncio.
- Quando foi a última vez que alguém te olhou nos olhos e disse isso?
- Nunca. - confessou ela.
- Pode levantar e ir embora, se quiser. - disse displicentemente.
- Não.
- Então fica. Mas fica como quem só quer ficar, acima de qualquer coisa. Fica pra transcender tudo que você conhece sobre si mesma e pra permitir que o novo quebre tuas janelas. Fica e eu espero o que for pro que você quiser.
E, pela segunda vez, fez-se silêncio. Era um daqueles momentos em que nós desejávamos, à distância, poder fitar os olhos do outro para tentar entender o que é belo demais para as palavras.

sábado, 19 de julho de 2014

Me lembro bem.
Talvez boa memória não seja lá muito saudável, mas não consigo fazer diferente. Todos os sinais, todas as palavras soltas no ar que me diziam para ir embora antes que fosse tarde demais... Tudo que ela disse sobre o Amor. E eu resolvi ficar.
Tanto tempo depois - talvez vidas e mais vidas - e me pergunto: aguentaria tudo isso de novo? Toda a luta vã e todo o cansaço mental, físico e emocional, em outrora, não me trouxeram nada. Por quê agora seria diferente? Os sinais são os mesmos e, minha cegueira, também.
Lágrimas me lotam os olhos só de pensar. Seria outra facada na mesma ferida.
Que chance tenho eu? Seus portões estão fechados e não faço ideia de como abri-los. Morro de medo só de pensar em não conseguir. Morro de medo por motivos demais, talvez.
Mas e as músicas que tocam no seu rádio e te fazem lembrar de mim significam alguma coisa? Diga-me, Milly Michaleson. Preciso saber o que se passa nesse teu fogo de um outro index.
Não posso ser mais um a respirar fumaça do incêndio que vem de dentro de mim. Seria inaceitável.
Amor não se pede, não se implora e tão pouco se compra. Não quero ter de olhar para os teus olhos e dizer as palavras num tom cantado justamente para lhe convencer. Só quero poder olhar no fundo dos teus olhos tão mais belos e entender que o sim já fora dito há mais tempo do que a matemática humana pode calcular.
Me sinto atingindo o chão, meu amor. Mas, já cantara Joshua:

"It's only falling in love because you hit the ground."

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sinto medo, mas já não temo as mesmas coisas
Tenho medo de que você não queira ficar aqui,
Mas já não temo não conseguir sair do lugar.
Você me ensinou  transcender e ser tão grande quanto eu possa ser.
Aprendi a me bastar e me elevar sempre.

Não preciso fazer sentido.
Só quero que você fique e olhe no fundo dos meus olhos para que eu entenda.
Não se sinta culpada ou com grande responsabilidade.
Eu sei que aguento o peso de ser o lado mais frágil

Só fique, por favor.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Tudo foi absorvido
As dores dos dias se tornaram banais
Mortes, desamores e partidas
Não eram nada mais que acasos da vida.
Quanto tempo mais?
Olhei pra dentro de mim
E não via nada além do vazio
Um vácuo infinito
Para ser preenchido.

Não havia mapa ou caminho para chegar
Nem mesmo eu sabia como ir
Então você olhou pra mim
Como quem sabia de cor
O caminho, as pedras, a terra
E que se não houvesse cavalo,
Iria a pé.

Foi então que olhei de volta.
Havia um mesmo caminho do outro lado
Uma ponte sem final certo.
Por cima de rios de dores esquecidas
Mortes, desamores e outros acasos de vida
Havia você, esperando para ser salva
E também para salvar.
Já não pergunto quanto tempo mais
Até o Amor chegar
Quebrar minhas janelas
E vir para ficar
Os cacos já estão no chão
e a janela, escancarada.

Fica.

Entregando,

- Pierrot.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Oyá, minha mãe! Que há com esse tempo? Parece que o relógio parou por aqui.
Quão triste pode ser olhar pro espelho e não ver qualquer mudança significativa? Sinto como se os anos fossem meras vírgulas e que eu estou na mesma frase há vidas.
As dores ainda são as mesmas; e as feridas, cardinais. Os desamores não me deixam nem por uma fração de segundo. Acho que meu fardo é carregar tudo isso como minha eterna cruz particular.
Toda vez que seus olhos de Lua se encontram com os meus, tudo rui. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

De nada adianta exorcizar nossos demônios. Eles nunca vão embora. É preciso doutriná-los.
"I can't drown my demons, they know how to swin.".
Eu sou meu próprio demônio. Estou preso dentro de mim mesmo e não sei como ir embora.
Há tempos, ouvi de um amigo que não devemos saber muito, ou jamais conseguiremos voltar a conversar com alguém, afinal, as conversas tenderiam a ter níveis intelectuais inferiores.
Não sei nada e sempre sinto que ninguém entende. O único momento em que não me sinto só é quando estou sozinho. Isso é o maior paradoxo da história. Sou minha única companhia fiel; o único que me entende, me ouve e me ajuda, mesmo que em silêncio. Eu e apenas eu entendo meus próprios devaneios, partilho dos meus gostos e medos.
Estou confortavelmente dentro de uma concha, onde todas as condições são favoráveis para que daqui eu não saia.
O que aconteceu comigo?
Certo dia li que é horrível quando uma pessoa boa se deixa levar pelas coisas ruins que lhe acontecem. Será que sou um desses casos? Me deixei enclausurar pela dor e pelo conhecimento até me tornar esse megalomaníaco eremita moderno? Sinto como se nunca fosse sair daqui, de dentro de mim mesmo.
Cada faceta da vida me soa mentirosa. Não sou quem vivo. Só sou eu mesmo quando estou sozinho.
Sou o poeta solitário do fim do bar, que jamais se casou, teve amigos ou sequer contou pra alguém o que sentia. Escreveu alguns livros mas nada na vida jamais lhe fora significativo.
Eu sou o poeta triste que não consegue mudar. Que toda vez que tenta, cai em desespero livre como um suicida se jogando do topo de um prédio no centro da cidade. Dói quando toca o chão.
Pior do que isso, sou o suicida que não morre. Que não se liberta. Quebro pernas, braços, sofro traumas cranianos, mas jamais me liberto por completo. Cada dia com mais arranhões, fraturas dores e frustrações para tratar.
De nada adianta exorcizar nossos demônios. Eles nunca vão embora.
março
março
março
março
março.
paciência, mãe iemanjá.
amor, mãe oxum.

março
março
março
março.
quero sorrir.