Juntei todos os papéis. As tuas cartas se confundiram com as minhas, que eu nunca enviei. Palavras que hoje não são nada. Se tornaram só substantivos, verbos e adjetivos desconexos.
Risquei o fósforo e coloquei fogo nas mentiras. O fogo foi comendo o papel, pouco a pouco; sujeito após predicado.
No final daquilo, não faria a menor diferença que ofendeu primeiro. "Nesse mundo não existem vítimas, somos todos agressores", como já disse Rodrigo Tavares.
Ninguém conseguiria distinguir quem usou o papel rosa, ou o papel pardo; a caneta azul, ou o lápis rosado; quem entregou num envelope com perfume, ou num papel dobrado.
O cheiro subiu. Um cheiro forte de papel queimado, que me era estranhamente bom. Talvez pelo fato de ser cheiro de vida nova; de pessoas novas (que espero que não tenham esse cheiro de queimado).
As cinzas começaram a levitar, como num feitiço. Estavam ali, flutuando, diante dos meus olhos, fragmentos ínfimos da descrição detalhada que, um dia, eu fiz dos teus.
Aquelas cinzas significaram muita coisa, e agora estão no ar... Sem rumo.
Deixei os restos do teu corpo lírico queimando e voando. Fiz um chá mate. Sentei, aliviado, e sorri. Isso sim é um recomeço.
" A minha história não acaba aqui. Quem põe esse ponto final sou eu."
