Ela olhou pra mim como quem prevê futuros demais. Mexeu levemente os lábios como quem completaria tediosa e previsivelmente tudo que eu diria e fechou sua expressão, embasbacada com o que veio depois.
- E se você não estiver certa?
- O quê? - retrucou ela, em tom de confusão.
- E se você não estiver certa sobre absolutamente tudo que gira ao seu redor? E se o mundo for mais do que apenas desistir, dormir e acordar? Creio que jamais te ocorreu que seja perfeitamente possível que você esteja redondamente enganada e ninguém jamais foi capaz de apontar isso.
- Eu não erro. - seca, ríspida, dona da verdade. Nada que eu já não conhecesse.
- Acabou de errar, aliás. - retruquei, sarcástico.
Ela silenciou e enrubesceu. Jamais fui capaz de decifrar uma ruga de preocupação que fosse no rosto dela, tão pouco consigo desvendar qualquer pensamento confuso e devastador que possa a ocorrer.
- Tô apaixonado por você, porra! E isso não é errado.
- Errado é você passar por isso e se machucar...
- Já reparou que quem tem mesmo medo da dor é você? A grande verdade é que eu cago e ando pro que venha a me arder. Se eu quisesse me isentar disso, viveria numa bolha. Você é medrosa.
- Não tenho medo de nada. - mentiu ela.
Mentiu sim. Essa era uma mentira das boas - ou das ruins - que ela sempre contava.
- Eu não tenho medo de nada. Não me importo com o que possa doer, com o que possa marcar ou com o que possa ser esquecido. Só consigo pensar que você não vai me afastar porque eu não vou embora e nem vou deixar que você se vá.
Fez-se silêncio.
- Quando foi a última vez que alguém te olhou nos olhos e disse isso?
- Nunca. - confessou ela.
- Pode levantar e ir embora, se quiser. - disse displicentemente.
- Não.
- Então fica. Mas fica como quem só quer ficar, acima de qualquer coisa. Fica pra transcender tudo que você conhece sobre si mesma e pra permitir que o novo quebre tuas janelas. Fica e eu espero o que for pro que você quiser.
E, pela segunda vez, fez-se silêncio. Era um daqueles momentos em que nós desejávamos, à distância, poder fitar os olhos do outro para tentar entender o que é belo demais para as palavras.
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