Ela volta. Eu sei que volta.
Ela deve estar só dando um tempo, num lugar qualquer, só para sair da rotina - que deve ter se tornado maçante para a liberdade dela.
Ela me deixou um bilhete, dizendo para eu me distrair nesse "meio tempo", mas nessas últimas semanas eu só tenho conseguido olhar para a porta, esperando o giro da maçaneta, seguido por sua entrada triunfal, com os cabelos ao vento da meia-noite, e seu rosto iluminado pela luz da lua.
Ela encontraria uma casa bagunçada e confusa, mas com um simples movimento de lábios - para formar a palavra "voltei" - faria tudo se ajeitar.
Jogaria fora as garrafas de bebida;
Apagaria o cigarro, que queima sozinho no cinzeiro;
Guardaria todos os remédios desnecessários;
Substituiria os lençóis sujos por limpos, com o cheiro dela;
Cresceria meu cabelo;
Alimentaria o corpo físico;
Voltaria com a velha rotina de trabalho.
Tantas mudanças...
O tempo está longo demais, e eu estou sem notícias.
Desisti de olhar para porta, e agora fito o telefone. Estou agindo como se ela realmente fosse ligar às 3 da manhã, só para me dar notícias.
Tenho, também, checado diariamente a caixa de correio, mas só recebo contas, que por sinal estão acumulando. Não me mandou um simples cartão postal da Terra do Nunca.
Hoje resolvi mudar. Resolvi parar de esperar, sem nem ao menos ter alguma certeza.
Tirei todas as cartas que escrevi, sem destinatário, de cima da escrivaninha e coloquei numa gaveta.
Resolvi queimar aquela foto de Polaroid que eu tirei enquanto você dormia;eu não preciso mais olhar para ela.
Fiz a barba. Tomei banho. Limpei a casa.
Me livrei dos índícios de álcool e nicotina que estavam espalhados por lá.
Fiz um chá de erva doce.
Recomecei.
Já se passaram dois anos desde o recomeço. Estou trabalhando num novo livro.
Acabou o chá de hortelã, vou sair para comprar mais.
Coloco os fones no ouvido, seleciono Chico Buarque e saio de casa.
Tempo ameno. Estou usando calças cáqui, uma camisa de flanela. Meu cabelo crescido balança ao andar. Estou de chinelos.
Chego ao mercado.
Estou no corredor de chás. Tiro um dos fones.
"Celso?!", ouço. Me viro e A vejo. É Ela. Ela. Ela.
- Já tem tanto tempo...- Ela diz.
- Dois anos - respondo.
- Você nunca mais me procurou.
- Eu procurei até perceber que eu precisava me encontrar, antes de procurar por qualquer coisa.
- Hum... Foi bom te ver! - me abraçou, e saiu andando.
Pensei em ir para o corredor de bebidas, e voltar para a escuridão que eu tinha saído.
Peguei duas caixas de chá.
Estou curado. Coração curado. Alma curada. Está tudo bem agora.