quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Rapaz

Era uma vez um rapaz. Um rapaz frio, ou era o ele transparecia ser. Vivia em confusão com seus sentimentos, e jamais pensou em acordar aquele lado esquerdo do peito, que já estava quase esquecido.
Um dia esse rapaz conheceu uma garota. Foi um atracão. Nunca havia desejado ninguém daquele jeito. Ela despertava nele seus desejos mais profundos, aguçava sua luxúria, mas era só. Ou era só o que ele queria que fosse...
Ela foi se aproximando com o tempo, se tornando amiga, mas quanda ele tentava aceitá-la assim, seu desejo aumentava e - segundo todos a sua volta - seu sentimento também.
"Ela é minha amiga, e eu tenho que aceitar!"- Ele pensava, mas seu ciúme ao ouvir relatos e histórias lhe contradiziam.
Um dia ele a teve. Sim. Ele a teve. Foi capaz de realizar um sonho, parcialmente. Uma coisa que significara tanto para ele, foi apenas uma noite mal dormida para ela, uma ressaca.
E as histórias continuavam, e a cada dia seus relatos o atormentavam por mais tempo. O irritavam. Essa era a palavra. Raiva. Raiva de mil homens. Mil homens desconhecidos, que puderam tê-la de verdade, sem merecer. Sem saber tratar.
"Desconte essa raiva na sua música! Nos seus desenhos!"- Ele pensava. Mas tudo o que conseguia fazer era se flagelar verbalmente por não conseguir apenas amizade, por querer algo mais.
Naquele dia ele tentou fazer diferente. Chegou em casa, e foi escrever. Escrever um relato.
"Eu estava suando frio; eu estava nervoso. Minha pele estava arrepiada, mas eu sentia o calor correr dentro de mim. Estava na minha circulação, no meu sangue (que estava borbulhando). Os lábios dela se mexiam, me contando outra vez de seus vários amores. Eu só conseguia prestar atenção a sua beleza. Ao seu rosto, ao seu corpo, ao seu jeito.
Agora a caneta treme na minha frígida mão suada. Minha raiva só aumenta por pensar que eu caí no canto da sereia. Um dia eu teria de assumir. Concordar com o mundo ao meu redor. Ninguém vai me ouvir. Talvez ninguém leia isso..."
Até onde eu sei, aquele pobre rapaz não conseguiu mais escrever. Mas a história prossegue até os dias de hoje, sem um final previsto...