Tô numa estação qualquer da linha azul do metrô paulistano e tem um desses casais na minha frente. Enquanto ele fala de futebol, ela finge estar prestando atenção, quando, na verdade, está olhando para um ponto qualquer; enquanto ela fala sobre sua banda preferida, ele finge estar prestando atenção quando, na verdade, está olhando pro decote da mulher ao seu lado. Essas pessoas mentem umas para as outras. Elas fingem um interesse inexistente em troca de carinho ou sexo superficial, para, no fim das contas, acabarem ganhando atenção de estranhos, em mesas de bares sujos, enquanto contam o quanto dói o coração.
Eu não. Gosto de cada detalhe do seu dia, contados infimamente. Eu amo descobrir mais sobre o que você gosta; eu adoro te desvendar. Me encanto quando você fala toda e qualquer bobagem, e dou cem por cento da minha atenção pras suas palavras desconexas. Quero, realmente, ajudar se algo vier a lhe afligir. Portanto, ma belle, se eu bater na tua porta, vê se me deixa entrar, porque estou perfeitamente disposto a parar os ponteiros enferrujados do meu relógio enquanto você fala. É só me deixar entrar.
"Você vai me deixar entrar
(vai me deixar entrar)
Você vai me deixar ficar
Pertinho o ano inteiro"