Odeio filas. Sempre odiei, mas aquela, em especial, estava mais lenta, justo quando eu estava com pressa...
Eu olhei ao redor, naquele banco cheio de gente, com as paredes acinzentadas e deprimentes. Ninguém ali parecia feliz com a demora.
Passei por muitos rostos, aleatoriamente, sem qualquer intenção; apenas para passar o tempo imaginando a vida delas.
Um rosto em especial me chamou a atenção. Era familiar...familiarmente doce...
Puxei dos arquivos da minha mente de onde conhecia aquele rosto, e senti que sabia. A mulher fixou seus olhos num pedaço de papel em suas mãos, provavelmente uma conta qualquer. Continuei vasculhando incessantemente meus arquivos mentais e tive uma luz. Era aquela tal garota, dos olhos marcantes, sorriso inocente e pele de alabastro. Me lembro como se estivesse acontecendo agora.
Ela foi a melhor. A mais difícil, é verdade, mas a melhor. Cada momento que eu esperei valeu a pena, só para eu poder ouvir ela dizer "bom dia", deitada nos meus lençóis simples.
Ela era a mais ciumenta. Eu adorava aquilo. Para qualquer mulher que eu olhasse, ou de cada mulher que eu sequer comentasse, você se irritava. Ah, bons tempos.
Me lembro de quando ela me provocava, e fugia dos meus papos, e dava a famosa desculpa de "somos muito amigos, né?!". Eu me lembro do gosto que aquela época tinha pra mim...
Lembro bem de querer prendê-la depois de dá-la asas novas de aniversário, e ensiná-la a voar.
Um dia ela cedeu. Se jogou de forma tão mágica nos meus braços, que alguém na rua devia ter dito "era uma vez".
O beijo dela era inexperiente, mas muito caloroso. Foi estranho, como todo primeiro beijo, mas de um jeito diferente, já que afinal, aquele não era o nosso primeiro beijo, tanto um com o outro como em outras pessoas.
Os lábios rosados dela se moviam em sincronia com os meus, dois tons mais escuros.
Aproveitamos a paixão adolescente por algum tempo, entre uma conversa e outra em mesas de bares aleatórios. Dediquei-a minhas melhores canções da época, que ela cantava em coro com os boêmios da noite agitada de Moema.
Numa dessas noites de bossa, fomos parar no meu apartamento. Você caminhou com uma familiaridade incrível pela minha sala, que seus pés até pareciam íntimos daquele chão antigo.
Foi a melhor noite da minha vida. Na verdade ainda é. Nenhuma outra que passou por lá foi tão marcante quanto ela.
Acordei, e fiz café.
Levei para ela. Ela acordou sorrindo, e disse: "Bom dia!". Tomamos o café, e eu fui para o banho.
Quando eu saí, a cama estava vazia. Procurei pela casa, nu e sorrindo, esperando que fosse alguma brincadeira daquela mulher de fases, mas não era. Quando voltei para o quarto, vi um bilhete no travesseiro. "Eu não pretendo demorar, mas talvez eu vá. Eu vou voltar para o Rio Grande do Sul. Não te contei antes porquê eu odeio despedidas. Se for para nos encontrarmos, nós vamos nos encontrar, mas por agora vamos voar sozinhos um pouco. Abraço, apenas."
Me lembro exatamente de como foi. Sombrio.
Mas tudo foi se ajeitando, e o tempo foi passando. E aqui estamos nós, oito anos depois, na fila do mesmo banco. Ela estava com a razão, como sempre.
Se nos encontramos aqui, numa casualidade, é porque temos o que terminar ainda.
Agora, sem mais recordações, vou fazer acontecer.