Dia de cão. Nada colaborou para que eu pudesse sorrir. Acho que eu só precisava dormir...
Escadas infindáveis à minha frente. Desci-as em desespero, como se labaredas estivessem tentando me pegar pelas costas. Ao final delas, uma porta giratória, que eu carinhosamente chamava de "escape"; saí.
Era noite. Ali, no centro da cidade, bêbados e andarilhos já disputavam lugar para deitar. Procuravam, também, algo para lhes proteger do frio; vesti meu casaco.
Senti medo de ser como eles: sem rumo, sem vontade. Sem família, sem dinheiro. Sem casa, amor ou braços para onde pudesse voltar. Afinal, há quanto tempo eu já não sonhava?
O sono me fugiu. "Acho que não vou para casa...", pensei. Resolvi parar num bar (ou seja lá qual for nome que dão àquela espelunca).
Pedi algo forte para beber. Me trouxeram meio copo de uma bebida âmbar que eu não fazia ideia do que era. O gosto era horrível. Na verdade, nunca gostei de beber... Apenas paguei a bebida e fui embora.
Andando pelo cenário de destruição que é o centro da cidade à noite, uma sensação me tomou. Nenhuma palavra na minha língua poderia descrevê-la. "Wanderlust" foi a melhor definição que encontrei.
Para saciar meu desejo, andei. Andei, andei, andei.
Até hoje não para onde fui. Não sei de dobrei à esquerda e caí numa praça ou se segui reto até o fim do mundo. Só sei que nunca mais me encontrei.
Hoje estou mal vestido, de cabelo sujo, barba crescida e com um cheiro horrível. Bebo nas poças d'água que a chuva faz nas sarjetas. Não como há dias... Estou com frio, confuso e, por vezes, balbucio xingamentos ininteligíveis para mim mesmo, atraíndo olhares penosos e risadas. No que me transformei?
Será que alguém procura por mim? Alguém percebeu que eu nunca mais voltei para casa? Alguém me reconheceria se passasse por mim agora?
Perdi a guerra contra mim mesmo. Sem volta e sem revanche.
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