quinta-feira, 30 de junho de 2011

CARTAS

  Juntei todos os papéis. As tuas cartas se confundiram com as minhas, que eu nunca enviei. Palavras que hoje não são nada. Se tornaram só substantivos, verbos e adjetivos desconexos.
  Risquei o fósforo e coloquei fogo nas mentiras. O fogo foi comendo o papel, pouco a pouco; sujeito após predicado.
  No final daquilo, não faria a menor diferença que ofendeu primeiro. "Nesse mundo não existem vítimas, somos todos agressores", como já disse Rodrigo Tavares.
  Ninguém conseguiria distinguir quem usou o papel rosa, ou o papel pardo; a caneta azul, ou o lápis rosado; quem entregou num envelope com perfume, ou num papel dobrado.

  O cheiro subiu. Um cheiro forte de papel queimado, que me era estranhamente bom. Talvez pelo fato de ser cheiro de vida nova; de pessoas novas (que espero que não tenham esse cheiro de queimado).
  As cinzas começaram a levitar, como num feitiço. Estavam ali, flutuando, diante dos meus olhos, fragmentos ínfimos da descrição detalhada que, um dia, eu fiz dos teus.
  Aquelas cinzas significaram muita coisa, e agora estão no ar... Sem rumo.

  Deixei os restos do teu corpo lírico queimando e voando. Fiz um chá mate. Sentei, aliviado, e sorri. Isso sim é um recomeço.

  " A minha história não acaba aqui. Quem põe esse ponto final sou eu."

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