Sou uma criança; engatinhando pela casa, fuçando tudo que é novo, encontrei um quadrado em relevo na parede, que tinha algo como um focinho de porco no meio. Uma vontade súbita de sentir a textura daquilo me dominou. Levei minha mão em direção àquela figura atrativa e - como todos devem ter imaginado - levei um choque. Ah, mas como eu chorei! Gritei, esperneei, até que o susto do choque passou. Fiquei emburrado para o tal focinho de porco na parede. Voltei a engatinhar pela casa.
Não muito tempo depois, passei pelo mesmo lugar e vi a mesma figura que, ao invés de ter me causado repulsa, me atraiu novamente. Outra vez o choque, o choro, os gritos.
Com você é a mesma coisa: levo um choque, ando por aí até esquecer e te encontrar de novo; quando encontro, tudo é tão lindo que até esqueço o que me fez ir por aí, sem rumo. E é nesse momento que o choque vem - e vem forte. É como se eu estivesse submerso numa piscina e alguém jogasse um rádio ligado dentro (a única diferença é que eu sempre sobrevivo). Dói demais.
Mas, afinal, eu sou uma criança. Vou dar mil voltar por aí, até te achar de novo e levar outro choque. É como a tomada, mesmo: eu sei que dói, mas a vontade de te ter nas mãos é maior. É sempre maior.